Review

Andrew Bird
Andrew Bird & the mysterious production of eggs


Andrew Bird tem uma fábrica. Produz ovos em série limitada através de uma linha de montagem cuidada e demorada. O seu processo de produção inclui a partilha da composição com Nora O'Connor & Kevin O'Donnell que emergem, ao longo do album, na voz e na bateria , respectivamente. No entanto, todo o processo é controlado por Andrew Bird que deixa uma impressão digital algo intimista desde o início da audição de Andrew Bird & the mysterious production of eggs. Proveniente de Chicago, este jovem violinista conseguiu com este seu quinto album prender a atenção da generalidade da crítica norte-americana que começou a olhar para Andrew Bird como um seguidor, ou pelo menos, um reflexo dos recentes trabalhos de Rufus Wainwright, o que não é inteiramente verdade. De facto a voz de Andrew Bird recorda-nos algumas vezes o registo de Rufus durante os tempos de Poses, porém não encerra o dramatismo do singer songwriter canadiano ; Andrew prefere percorrer o seu trabalho num registo ora irónico, ora confessional, e por vezes melancólico ou nostálgico. A sua vocalização tem como pano de fundo a predominância de um som acústico pontuado por teclados, vibraphone, violino e até mesmo momentos em que Andrew justifica o epíteto de professional whistler, que reivindica nos créditos do album. Todavia, a dimensão deste album não poderia estar completa, sem uma referência á construção lírica de cada uma das suas faixas. Se é certo que as tonalidades pop e a voz de Andrew Bird prendem a atenção do ouvinte, não poderemos ignorar a melancolia de Happy birthday song (« Sing me Happy Birthday / sing it like it's going to be your last day ») e a ironia de Sovay (« I was getting ready to be a threat/ i was getting set for my accidental suicide ... ») ou de Fake palindromes (« Certain fads, stripes and plaids / singles, ads / run you hot and cold like a rheostat ... / i mean a thermostat! »), esta última extremamente convincente na tentativa de aproximação á sonoridade de Tomorrow never knows, tema marcante dos Beatles. De facto a escrita de Andrew Bird pode por vezes parecer cifrada numa tabela de elementos ou numa folha do Oxford Dictionary, porém a forma como Andrew joga com as palavras é por vezes lúdica e viciante. Andrew Bird & the mysterious production of eggs chega desta forma ao seu final. Na sua embalagem colamos uma etiqueta : frágil ! De audição demorada e cuidada.
Pedro Sousa