Review

The Dears
Album : No cities left [SpinArt ; 2004]
Morrissey. Damon Albarn. JP Simões ...
Por toda a imprensa musical, as comparações entre Murray Lightburn, vocalista e principal força criativa dos The Dears, e os dois primeiros nomes referidos no inicio deste artigo, têm sido constantes. Não só pelo facto de Lightburn ter uma voz incrivelmente semelhante, ora á do ex-vocalista dos The Smiths, ora á de Damon Albarn ( o que deu origem ao rumor de que os The Dears seriam um novo projecto de Albarn, desta vez sem desenhos animados á mistura ) , mas também porque em termos de construção e de processos musicais a similitude é imensa. Aproveito, por esta altura, para acrescentar JP Simões ao baralho ( basta ouvir " No cities left " , o tema que encerra o album, para sermos transportados para o imaginário dos Belle Chase Hotel, com direito a Natalia Yanchak, a teclista da banda e muitas vezes segunda voz, no papel de Raquel Ralha ) . Ancorando No cities left em letras que nos remetem para o cinzentismo irónico de Morrissey ( « Take me for a drive to the coastline / pull me to the depths of the sea » ) , Murray Lightburn parece ter escrito cada uma delas após ter ouvido incessantemente Vauxhall & I ( album de Morrissey de 1995 ) . Aliás, é talvez essa a melhor definição de No cities left : um album datado, embora fora do seu tempo. Um album com pronúncia britânica, proveniente das frias ruas de Montreal. Talvez o unico factor desta equação que não é datado ou fixo, são os próprios temas ; um a um abordam relações em colapso (" Pinning together, falling apart ") , esperanças infundadas em novas relações ( " 22 : the death of all romance " ) e a pressão da rotina diária quando se tem uma (" Warm and sunny days ou Lost in the plot ") . Cada tema gravita em torno das inúmeras faces de uma relação , das suas diversas etapas a partir do momento em que sabemos que aquela não pode mais continuar. É esta atracção de Lightburn pelo colapso e pelo final cada vez mais próximo que o aproxima de Morrissey. Mas o namoro com o músico britânico não acaba por aqui, e a própria sonoridade de No cities left tem merecido, por parte da imprensa, definições como " chamber pop " , ou " wine-drunk pop " , para traduzir uma pop fumarenta de cabaret (novamente os Belle Chase no baralho ou até mesmo os The Divine Comedy ) que por vezes, e de forma algo surpreendente, atravessa fronteiras e toca em Think Tank (" Warm and sunny days "), o mais recente trabalho dos Blur (ainda assim não se esperem incursões pelo deserto marroquino mas tão só os ambientes mais intimistas de Battery in your leg ou Sweet song). Os The Dears não trazem nada de novo, dirão alguns, e se são revivalistas, é estranho que o façam em relação a uma época tão recente ... porém outros, como eu, dirão que não há mal nenhum em não trazer nada de novo quando o que se faz é muito bem feito. E No cities left é, sem dúvida alguma, um bom album. Resta-nos esperar que o futuro nos desfaça uma dúvida : será Murray Lightburn um criterioso Fernando Pereira ou estaremos perante algo mais do que a mera imitação de uma formula de sucesso ? Para já a segunda hipótese ganha crédito ...
- Pedro Sousa